Durante vários meses, vivi na floresta — numa pequena comunidade no coração da Mata Atlântica. Fui com perguntas que eu ainda não conseguia formular por inteiro, do jeito que às vezes caminhamos em direção a algo sem saber ainda o seu nome. A floresta ali é antiga — densa, úmida, viva de sons e de uma qualidade particular de silêncio que se sente no corpo antes de ser registrada pela mente.

O que eu não esperava era a rapidez com que os hábitos de uma vida atarefada se tornariam visíveis quando despidos de seu contexto. Sem as estruturas habituais de rotina e obrigação, eu conseguia ver certos padrões com mais clareza: a inquietação, a busca constante, a dificuldade de simplesmente estar presente. A floresta não se adapta à urgência. Tem sua própria temporalidade e, mais cedo ou mais tarde, ou nos rendemos a ela ou vamos embora.

Na Psicossíntese, o conceito de superconsciente — a região superior do mapa da psique de Assagioli, onde surgem a inspiração, o amor genuíno e a experiência espiritual — não é uma mera aspiração filosófica. É entendido como uma realidade psicológica, tão concreta quanto o inconsciente inferior, que guarda nossas feridas precoces e nossos padrões adaptativos. A floresta, para mim, foi um encontro prolongado com essa dimensão. Não de forma dramática ou visionária, mas silenciosa e cumulativa — do jeito como um longo período de atenção a algo maior do que nós transforma, pouco a pouco, aquilo que tomamos por nós mesmos.

A tradição da Psicossíntese fala da “vontade” não como força ou disciplina, mas como uma qualidade de consciência direcionada — a capacidade de escolher onde colocamos a atenção. Na floresta, descobri algo sobre a vontade que nenhum livro havia me transmitido com clareza: que o querer mais profundo é muitas vezes uma forma de soltar. De afrouxar o controle da mente administradora por tempo suficiente para que algo mais essencial possa emergir.

Voltei do Brasil carregando algo que não perdi. Não é uma doutrina nem uma técnica. Está mais próximo de uma qualidade de atenção — a compreensão de que a mudança real acontece no ritmo da natureza, não no ritmo da produtividade. De que a psique, como a floresta, tem sua própria inteligência, e de que o trabalho da terapia não é substituir essa inteligência, mas criar as condições para que ela possa ser ouvida. No consultório, levo a floresta comigo. Não como lembrança, mas como um lembrete: as coisas mais importantes raramente chegam quando as forçamos. Chegam nos momentos mais quietos — na pausa depois de uma longa expiração, no espaço que se abre quando paramos de tentar nos consertar e começamos, em vez disso, a escutar.